fiaposdepalavras
Terça-feira, 30 de Junho de 2009
pit...plaf...
pit...plaf...
...pra quê temer futuro, adiar presente, se a pedra na pedra esboroa qualquer distração.
as coisas são previsíveis, podem apostar, difícil mesmo é viver minuto a minuto e ainda saber.
mas eu vivo e sei, mantendo as víceras, à revelia do mundo, bem longe dos lanceiros.
Segunda-feira, 22 de Junho de 2009
passagem
Sexta-feira, 19 de Junho de 2009
Terça-feira, 16 de Junho de 2009
inspiração
É sempre inesperado o que nos leva a dizer. Ontem eu escrevi uma carta longa e cheia de meandros e paradas, com frases que estancavam e outras que se iniciavam num susto.
Hoje foi diferente. Escrevi por profissão e graças ao Pedro.
Quando se admira uma pessoa não tem como não se admirar. É o mesmo quando a gente ama ou quando o desejo morre. Não há espaço pra dúvida.
Ouvindo o meu irmão eu pude confirmar que a especialidade tem um cheiro, um jeito e é encantadora. Ela se mostra diferente em cada um pelas qualidades que apresenta, mas promove uma atenção única. Pena ser tão raro encontrá-la. Ainda bem que eu tive sorte. Eu agradeço por isso, é muito bom vê-la – todos os dias – na minha casa.
Domingo, 14 de Junho de 2009
Segunda-feira, 1 de Junho de 2009
por alguns instantes
Sábado, 16 de Maio de 2009
:)
tudo de bom um filme agora... tudo de bom música pelo quarto...tudo de bom meu cabelo roçando nas costas...tudo-de-bom ver o céu azul no fim dessa tarde angustiosa...estrelas surgindo no agora escuro há pouco claro céu iluminado indo embora deixando um azul suave anunciando a noite que chegava e aqui está.
ver a vida andando junto comigo...em mim...no mundo...uma tarde diferente das outras...um fim-começo de outra natureza.
Segunda-feira, 11 de Maio de 2009
dentro do carro
Falei pro meu irmão Pedro quando fomos pegar a roupa lavada na casa de Joana sobre o episódio em que o jornalista José Castelo entrevistara Hilda Hilst na Casa do Sol. Olhávamos os dois para a avenida que nos levaria ao bairro Poty Velho onde Joana mora. Foi no caminho, entre uma digressão e outra, que acabei ouvindo do meu irmão a síntese do sentimento que define a sensibilidade perante algo que muitas vezes é tratado com descuido. Contei-lhe que o jornalista ao chegar à Casa do Sol encontrara uma Hilda depauperada pela velhice. Uma mulher que criava – à época – 70 cachorros, que falava todos os dias com o pai morto há décadas, que acreditava na existência de extraterrestres e lia física quântica. Além de linda quando jovem, Hilda teve uma educação primorosa e vendo pai – poeta – não alçar os vôos que acreditava ele ser capaz, caso a loucura não o tivesse tomado, enveredou pela poesia, abraçando-a como uma forma de vida. Para ela não havia conciliação entre uma vida mundana e a escrita do sublime. Por isso, afastou-se de um Rio de Janeiro onde a existência era “muito fácil” e decidiu dedicar-se plenamente a escrita. Junto com sua escolha, veio a solidão. Necessária, no seu modo de entender, para a execução do projeto. É ruim e tremendamente incompleto contar assim a vida de uma das maiores poetas do século XX. É ruim porque nem se aproxima da imensa beleza que ela foi capaz de criar ao longo dos anos. É ruim ainda porque o retrato que se pode fazer dela, através de sua honestidade diante do jornalista e das concepções que o mundo tem sobre o que é ser uma pessoa sã, põe em relevo a “excentricidade” de sua vida e declarações. Mas não pretendo falar longamente sobre Hilda. Apenas contextualizo um pouco o que eu e Pedro fomos conversando. Num certo instante disse-lhe que o que me incomodava na nossa profissão era, justamente, o perigo de banalizar o outro, algo, praticamente, inevitável pois o jornalismo trabalha com clichês o tempo inteiro e se utiliza de comparações e metáforas para aproximar o relato da realidade e compreensão do leitor. O que se deduz que o incômodo deverá ser administrado o tempo inteiro no exercício da profissão. Mas o jornalista também é um contador de histórias. Ele olha e vê a possibilidade de cotidianamente trazer um naco da realidade para ser vista, analisada, sabida e regurgitada. De forma autoevidente, o jornalismo acaba sendo a extensão de um boca a boca autoral ou de uma interpretação compartilhada. No meio dessa conversa chegamos ao Poty Velho e pegamos a roupa na casa de Joana. Eram dois grandes retângulos enrolados em lençóis que o Pedro, rapidamente, jogou no banco de trás do carro. Fizemos o retorno e tendo o rio do nosso lado direito, voltamos a falar do assunto. Eu argumentei ainda acerca da responsabilidade da própria Hilda sobre seus atos e que ela aceitara dar a entrevista de livre e espontânea vontade, sabendo bem o que se poderia pensar da vida que parecia levar. Falei também sobre a responsabilidade do jornalista frente ao enfoque que acaba por oferecer como interpretação. Enfim, a questão ética foi a pedra de toque da nossa discussão. No fim, meu irmão, arrematou nossa conversa com uma fala que traduziu o sentimento que se sobrepunha a todos os outros. “Eu só consigo é ficar triste pela Hilda. Uma pessoa assim devia se sentir muito só.” Foi o que ele dissera numa voz condoída, mas sóbria. Daí por diante, eu não acrescentei mais nada sobre ela. Apenas olhei pra ele e aquiesci.
Quinta-feira, 7 de Maio de 2009
anti-rudeza
estou com saudades de cabeça de passarinho. dela nos seus gestos, do mundo derruído que ela avista, dos discos de caetano tocando na vitrola, do seu deleite vendo os livros enfileirados na estante, da cor das paredes do seu quarto, das poesias escritas nelas, da sua janela nos vários inícios de noite com chuva, da especialidade de um mundo que parecia vasto e rico e pronto para ser descoberto, quando as pessoas pareciam mais do que banalmente se esforçavam em aparentar, quando adivinhávamos o sentido de uma palavra não concluída, quando a grandeza estava ao alcance da nossa sensibilidade; num mundo ainda cheio de promessas de alquimista; profundamente maravilhoso porque maravilhoso era o que apontava o nosso entendimento; instinto básico encantado que mergulhara longos anos no sumidouro das palavras.
saudade de uma cumplicidade atravessada, da aridez dos nosso encontros e do gosto de vinho tinto saboreado em alta noite mar a dentro.
a gente se perdeu, cabeça de passarinho, tenho certeza. uma certeza tão certa quanto a rudeza que pavimenta esta era. mas a minha saudade de ti ainda é uma ponte entre a duna branca e a rua - silenciosamente - brilhante de chuva.
Quinta-feira, 30 de Abril de 2009
detalhes de uma semana com gripe
Sexta-feira, 10 de Abril de 2009
Entrevista com Henri Cartier-Bresson

Sheila Leirner - Quando o maior fotógrafo do mundo declara que "a fotografia é um pequeno métier", isso não soa um pouco como menosprezo?
Henri Cartier-Bresson - Desprezo? É absolutamente falso! Me desculpe, mas eu lhe proíbo de dizer isso!
S.L. - Mas é verdade que a fotografia não o interessa?
H.C.-B. - Ela em si, o seu processo, não me interessa. O que me importa é a vida e o meio imediato de transcrevê-la. A máquina fotográfica é um caderno de croqui, é o desenho imediato, com a sensibilidade, a surpresa, o subconsciente, o gosto pela forma. Eu faço pintura, estudei pintura desde os 15 anos. Aqui nestes catálogos você verá que há trabalhos daquela época.
S.L. - Eu gostaria que primeiro falássemos sobre a fotografia...
H.C.-B. - Pode-se fazer qualquer coisa com uma máquina fotográfica. Só é difícil descascar uma batata com ela. Todos são fotógrafos, há tantos fotógrafos no mundo quanto aparelhos, não é? E há mais fotógrafos do que atores, veja o enterro de Mitterrand. Não tenho nada contra, mas, para mim, só há uma coisinha na fotografia, um aspecto bem pequeno, que me cativa o espírito: a observação da realidade. Não tenho imaginação e essa observação é muito subjetiva. Venho da pintura, da literatura, a minha formação é de artista.
S.L. - Como Sebastião Salgado, que também não tem formação de fotógrafo?
H.C.-B. - Exatamente. O Salgado vem da economia política. E tudo o que realiza é extremamente apaixonante. Ele enfoca problemas muito importantes. Nós somos visualmente bastante diferentes, mas ao mesmo tempo o que ele faz me diz respeito, assim como a sua capacidade de trabalho. Ele tem um espírito que mostra a vida, por causa da sua formação de economista. As pessoas na América desprezam o fotojornalismo, mas no fundo somos jornalistas no sentido de que mantemos um diário ("jornal", em francês), como se fôssemos escritores. Eu jamais desenvolvi temas. Salgado faz grandes assuntos, como o trabalho, a superpopulação, enquanto eu borboleteio, vou olhar à esquerda e à direita. Eu venho da pintura.
S.L. - No Brasil, existe uma tradição de fotojornalismo que é muito apreciada. Eu nunca tive preconceito. Esse borboletear é uma compulsão plástica que vem da sua formação de pintor ou é também uma curiosidade "jornalística", relativa à indignação e à denúncia?
H.C.-B. - É uma atitude completamente diferente da do Salgado, mas existe uma cumplicidade entre nós, porque não lidamos com a imaginação, nós dois vamos à realidade.
S.L. - Ao contrário de Miguel Rio Branco, que usa a linguagem fotográfica para fazer ficção. Você conhece os fotógrafos brasileiros?
H.C.-B. - Não tenho lembrança. O Rio Branco, sim. Ele tem um mundo completamente diferente do meu, imaginário. É muito gentil, mas não há nada em comum entre nós. Para mim é o cinema e a literatura que produzem o fantástico, não a fotografia.
S.L. - Você nunca se sentiu tentado pela ficção?
H.C.-B. - Eu não tenho imaginação. O que me fascina é a vida, que tento compreender. Mas já me senti tentado pelo cinema, sim. Trabalhei com Jean Renoir, fiz três filmes com ele. Fui assistente em A Regra do Jogo, que é um filme admirável. Porém, o cinema conta uma história e o que me atrai é o cinema- documentário, que se aproxima da reportagem fotográfica.
S.L. - Mas as suas fotografias às vezes são narrativas, no sentido do tempo e do movimento, e quase se aproximam da ficção quando apresentam uma realidade que é subjetiva e portanto interpretável - como as suas cenas mexicanas, por exemplo, de
H.C.-B. - Eu não tenho nada para contar. Eu vou, olho, as coisas me surpreendem. Isso é puramente visual. Tenho horror da palavra conceitual. Se os artistas conceituais nos convidarem para jantar, eles servirão apenas as espinhas do peixe! Eu pessoalmente prefiro a carne dele (risos). O conceitualismo é pura masturbação mental, no qual não entra a sensibilidade. Há pouco, li no Le Monde que um neurologista da Universidade de Ioha escreveu um livro sobre o tratamento de seus pacientes por meio do qual chegou à conclusão que a emoção é fundadora da razão. Não é maravilhoso?
S.L. - Você fala da fotografia como instrumento do pensamento, da forma como foi usada nos anos 70?
H.C.-B. - Antes ainda. Marcel Duchamp era um homem extremamente inteligente. Eu o conheci bem. Um dândi brilhante, muito culto. Estavam todos lá, Picasso, o Chagall da grande época, etc., e ele fez uma pirueta declarando: "A arte está morta." Isso é muito engraçado, mas, enfim, um pouco curto como pensamento, não é? Acho que ele não se reconheceria em todos esses seus filhos espirituais de hoje. Duchamp não fez nada, mas queria sempre ser novo. Nós nunca somos novos, tudo já foi dito. São as diferentes maneiras de se fazer um ovo, os ovos sempre existiram.
S.L. - Talvez eu entenda por que você aproxima a fotografia composta, de ficção, do conceitualismo herdado por Duchamp. É a questão recorrente até hoje, do "objet trouvé" - o fotógrafo, lembrando também Man Ray, determina que o objeto fotografado seja transformado em arte e ponto final. Isso não é revolucionário?
H.C.-B. - Nada disso me interessa. Minha paixão desde a infância é Paolo Uccello, Piero della Francesca, Van Eyck, etc. e a geometria. Trabalhei com André Lhote durante dois anos, gosto mesmo é da composição.
S.L. - Você é um clássico. Talvez essa seja uma das razões do seu enorme reconhecimento.
H.C.-B. - Sou grato pelo reconhecimento, mas ao mesmo tempo isso é muito pesado para se carregar, eu lhe asseguro. É o motivo pelo qual eu não quero ser fotografado, identificado, gostaria de ser anônimo. A celebridade é horrível. Eu sou libertário. Tenho horror ao poder e a notoriedade como fotógrafo é uma forma de poder que eu recuso.
S.L. - Você pensava assim quando era jovem?
H.C.-B. - Nasci revoltado. Quando era prisioneiro, fugi três vezes e estou pronto para escapar de novo. Você entrevistou o Carriere, que eu gosto muito. Nós temos em comum a crença nos vários aspectos do budismo. Na verdade, sou contra essa sociedade que se desmorona. Tenho a vantagem de ser muito velho, conheci um outro mundo! Hoje, as pessoas não estão revoltadas em busca de um ideal, elas estão desgostosas e isso é uma atitude niilista.
S.L. - A sua arte é humanista. Você ama o homem.
H.C.-B. - Eu amo o homem, mas não tenho a menor confiança na sociedade. Todavia, felizmente há outras sociedades no mundo judaico-cristão. Recebi, há pouco tempo, um livro de fotos sobre o Brasil, com uma dedicatória do Lévi-Strauss, que me emocionou profundamente. A concepção do trabalho no Velho Mundo, por exemplo, é terrível. Os africanos trabalham de outra forma, com alegria. E há séculos que são diferentes também: há o século 12 e o quinto século antes de Cristo, que são extraordinários!
S.L. - Olhando o seu livro A França de Cartier-Bresson, que guardo desde 1969, pensei em lhe perguntar se o fato de ser francês influiu decisivamente no seu trabalho.
H.C.-B. - Fui profundamente marcado pelo surrealismo! Não falo dos amigos surrealistas como Max Ernst, mas da atitude surrealista que me marcou; a imaginação. E isso justifica todo o misticismo, o espiritual que eu encontro no taoísmo e no budismo, que criou a unidade completa entre o corpo e o espírito. Pois no mundo judaico-cristão-muçulmano, se separa o corpo do espírito. Estamos numa época de decadência, o que pode ser muito agradável como o sabor do faisão que se deixa apodrecer um pouco antes de comer, mas...
S.L. - Essa sofisticação do "faisandé" não é nada agradável para os que vivem o frescor do novo mundo.
H.C.-B. - É, eu sei. As diferenças são cada vez maiores entre os países ricos e os pobres. O integrismo é uma coisa apavorante, há o "sim" e o "não", como na informática, mas na matemática quântica é completamente diferente, há um terceiro tema. Eu venho da Normandia, lá é assim: "Talvez sim, talvez não." Um horror!
S.L. - Henri, você que publicou mais de 30 livros...
H.C.-B. - Não sei nada disso...
S.L. - Você que publicou mais de 30 livros, quais são os seus preferidos?
H.C.-B. - Proust...
S.L. - Pergunto sobre os livros preferidos de sua autoria.
H.C.-B. - Bem, eu sou grato aos que reconheceram o meu trabalho como Tériade, o gênio Tériade, você sabe, aquele editor que publicou Jazz de Matisse.
S.L. - Você fabricou ícones...
H.C.-B. - Pare com isso, por favor. Pare! Olha que eu sou autoritário! (risadas)
S.L. - Deixe-me explicar: você fabricou imagens com tal grau de iconicidade que elas correram o mundo e inspiraram obras. Conheço uma ótima desenhista, por exemplo, que usou a foto daquele menino contra um muro em Valência para uma colagem de grande impacto. Como você vê isso?
H.C.-B. - Mas é o acaso! Isso é uma besteira! Não é meu problema. Veja bem, há quase 25 anos que eu não faço mais fotografia, só retratos de meus amigos, porque isso me diverte, embora seja dificílimo. Trata-se de um tête-à-tête
S.L. - Os seus retratos adivinham realmente, como você costuma dizer, o silêncio dos retratados. Todo o humor de Saul Steinberg com o gatinho, toda carga existencial de Beckett e Giacometti, a perplexidade de Bonnard, a ambigüidade de Ezra Pound... É preciso conhecê-los profundamente, não?
H.C.-B. - É preciso estar disponível. É preciso olhar. Há muito poucos que olham, vêem, identificam. Nas exposições, a maioria dá uma olhada rápida e vai direto nas etiquetas, pergunta de onde vêm as obras e quanto custam, ainda por cima.
S.L. - Você disse que a fotografia parece simples, mas exige poder de concentração combinado com entusiasmo mental e disciplina. Mas, afinal, é a inteligência que constrói a perspicácia do olhar.
H.C.-B. - Cada um tira prazer daquilo que quer. Mas o olhar é, sobretudo, uma questão de sensibilidade. Volto ao exemplo das exposições: acho também que é preciso destruir os fones de ouvido que explicam as obras aos visitantes. Você está vendo a minha bengala? Ela se abre e vira um banquinho que eu posso usar durante mais de meia hora para observar e desenhar no Louvre.
S.L. - A sua bengala vai ficar famosa como a sua máquina Laica! Por falar em Louvre, você foi o primeiro e talvez o único fotógrafo a ser mostrado naquele museu. Concorda que sua fotografia pode ser discutida nos mesmos termos que uma grande pintura?
H.C.-B. - Ouça, um bom fotógrafo é superior a um mau pintor. E vice-versa.
S.L. - Você não tem a impressão de querer parar o tempo quando fotografa, de congelar as coisas para que não escapem? Não sente uma certa ansiedade?
H.C.-B. - Você sabe, a fotografia é o problema do tempo. Tudo desaparece. Com a fotografia, existe uma angústia que não há com o desenho. O presente concreto ocorre em uma fração de segundos, o que é desagradável e maravilhoso simultaneamente. Trata-se de uma luta contra o tempo, que, por sua vez, é uma invenção do homem. É preciso esquecer de si mesmo e da nossa vontade, não querer nada e deixar as coisas virem sozinhas, como ensina o budismo. Com o desenho, tudo está ali à espera, o tempo é praticamente infinito.
S.L. - Você fala sempre do respeito do fotógrafo com relação ao objeto a ser fotografado. O fotógrafo, ao contrário, não tem alguma coisa de voyeur?
H.C.-B. - Sim, claro. Existe uma espécie de perversidade. Sthendal disse, não me lembro a propósito do que: "Essas pessoas roubam para dar." E isso se aplica também aos fotógrafos. Não há pudor, os acessos estão moldados pelo mundo atual que substituiu o erotismo pela pornografia. Nós somos um pouco como os equilibristas na corda bamba, eu diria que é essa a beleza da fotografia. Não há borracha para ela, não há como apagar...
S.L. - Paradoxalmente, contudo, a beleza do desenho e da pintura está na dificuldade de artistas como Matisse ou Giacometti, que apagam, recobrem, procuram, com uma angústia explícita em suas obras. O que incomoda na fotografia é uma certa facilidade técnica.
H.C.-B. - A técnica, em si, não existe. Mas é verdade que a fotografia é fácil demais e é preciso que adaptemos a técnica àquilo que queremos. Fotografia não se aprende. Por isso, digo que sou contra as escolas de fotografia, acho mesmo desonesto. Hoje com o filme 400 ASA, os problemas de luz não existem mais, só conta a experiência. É preciso adivinhar e depois, se não estamos seguros, basta verificar. O aprendizado, o contato excessivo com a máquina é a preguiça do olho, ele fica atrofiado. Não precisamos nem de célula fotoelétrica, o olhar é suficiente para saber quando a luz muda...
S.L. - Como você vê a produção dos jovens artistas e essa multiplicação indiscriminada e anárquica de clichês, sobretudo da tecnologia?
H.C.-B. - Só me interessa sociologicamente. Hoje há muito de tudo. Existe uma utopia sobre o cibermundo. Virilio fala do perigo do virtual, Baudrillard também. Quando eu digo que esse é um mundo suicida, é por causa disso tudo. Para que saber dessas coisas? Nós, fotógrafos, não estamos perto dos artistas; para mim, somos como artesãos, como marceneiros...
S.L. - No entanto, é no desenho e na pintura que eu lhe vejo mais como um "marceneiro". Eles são o prolongamento de sua mão e não apenas de seu olho. Parece haver ali muito mais prazer de manufatura artesanal do que na sua fotografia. Aliás, com todo aquele desjeito comovente que a gente encontra em Cézanne.
H.C.-B. - Certa vez o Saul Steinberg me enviou um cartão postal no qual escreveu que a minha fotografia é um chamariz, um álibi e uma ginástica "for your real thing", que é o desenho e a pintura. Eu recebi muito encorajamento, de Renoir entre tantos outros, e muita solidariedade de pintores e fotógrafos mais jovens que eu. A pintura e o desenho me obrigam a me recolocar em questão o tempo todo, não me deixam adormecer. Eles me fazem pensar no aqui e agora e no amanhã. Para mim, só há duas coisas que contam: o instante e a eternidade.
1996
Domingo, 5 de Abril de 2009
sem resposta e adiante...
Não. Não tem nada perfeito, pode acreditar. O passado, o futuro...é coisa angustiante demais. A gente pensa...as rodas do tempo vão me torturar assim toda vez? Isso não tem resposta...e pra quê se preocupar se o que importa sempre tá no presente? Numa coisa eu fecho com os budistas...e é nessa questão. É só deste instante que podemos dar conta...nada mais. É uma aprendizagem sem trégua. E tem segredos óbvios. Fazer o que se gosta é essencial e todo mundo sabe e se ressente por não fazer. Outra dica preciosa é não ser uma laranja aberta pro mundo. Ah...e cuidado com o silêncio, a gente se acostuma e ele pode ser uma prisão sem volta. Acho que por isso o blog existe. Escrever é uma forma de não desistir. É isso.
Sexta-feira, 20 de Março de 2009
desligada

tento não dar importância maior ao mundo.
a comoção só é possível se vc está disposta a não ter paz.
Foto - Pedro Moreira.
Segunda-feira, 16 de Março de 2009
esta noite
Quinta-feira, 5 de Março de 2009
escrevendo com chuva e sonho
chuva e sonho varrem o silêncio.
o ar molhado e o sonho desta noite me fizeram lembrar de uma peleja antes começada e agora concluída.
aproveitei os instantes e decidi falar. saiu como ameaça mas também como reconhecimento, como quem diz...ei...eu sei o que está acontecendo!
saber eu sempre soube...mas nada se comparou a ouvir em alto e bom som a voz sendo. me senti feliz. humana...e sempre quando isso acontece e tenho um céu pra onde olhar, e no sonho tinha céu, eu levanto o rosto e sinto a liberdade das nuvens lá em cima.
chuva – céu – mar. eita coisa da minha alma!
foi tão bom tudo que até pesadelo teve. tinha que ter. a essência do negócio tá nisso.
o que pra minha mãe é defeito na minha escrita, pra mim é dádiva. e olha que foi ela quem primeiro disse – cadê minhas cartas? gosto do que tu escreve, fia. só não gosto da parte dos problemas. tem que falar deles?
e eu, tem!
posso tá em desarmonia total com o mundo, contanto que meu inconsciente continue conversando comigo, eu levo o resto.
Quarta-feira, 4 de Março de 2009
Numa espiral de retorno, vou me entranhando cada vez mais no silêncio maior que é o dentro sem nome.
Olho para os lados e penso – ninguém à vista.
Ufa, agora posso ir.
Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009
Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009
Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2009
para ouvir os pensamentos precisei colocar o som no último volume. preencher o oco do meu tímpano que me distraia os sentidos foi a primeira providência decisiva. feito isso, restava esquecer que o oco ainda existia e atentar para as vozes conturbadas da minha mente. etapa por etapa, as coisas continuavam indefinidas. à vista embaçada as idéia adquiriam pálidos contornos. o desespero não mais cabia. assentada, quieta, atenta e calma exigi que os nervos do meu corpo se moldassem serenos semelhantes aos conceitos que de mim extraia. foi difícil e demorado colocar em paralelo uma coisa e outra. e nem em tudo obtive sucesso. mas se algo causou horror foi ter que aceitar o que era meu. ver-me no espelho dos nomes, encarnando sentidos precisos revelou o mais óbvio dos conceitos. tão ultrajante quanto o asco que eu sentia pelo outro, era o que eu negava ser próprio do meu agora. não havia instrumento, técnica ou bruxaria que pudesse apagar o instante em que me vi. eu era àquilo lá, uma distorção de tudo que eu havia desejado. com palavras fica fácil, mas tendo um espelho diante de si não se consegue afastar a vista. estaria salva se diante dele eu continuasse postada. o terrível não foi ver-se abjeta. o horrível é viver no fio da navalha como alguém que anseia o vômito sem dele se livrar.
rolo a pedra para o cume todos os dias e a mesma cena se revela a minha frente.
pela metade...
- Post de 7 de Agosto - Foto de Honey
- Maria Bethânia cantando "Grão de Mar" - Gravação anônima...disponível no youtube.
- Clarice Lispector - Foto de Bluma Wainer - 1946
- Rutger Hauer em cena de Blade Runner - Foto p/ divulgaçao.
- s/t - Filipa Andrade
- "deixar-se" - Foto de Tiago Estima
- Caravela-portuguesa - Zé Rui
- A autoria das imagens postadas anteriormente serão acrescentadas ao longo do tempo.
- te ver - clip da banda skank
- mulher em cores - pintura de rafaela pasa
- chave na porta - foto de sério fernandes
- senão...vejamos... -- foto de larry gaspar
- é lá...- foto de luiz caçador




